Deleito-me a pensar
Nas palavras escritas que crescem
Como se nelas existisse uma fonte
Onde o sublime e o impossível amanhecem
Um traço na folha
Uma folha sem traço
É um dilema perpétuo
Saber se o poema é um beijo… ou um abraço..
O trilho por decidir
E o vazio por preencher
Velas no rebordo da vida
E um grito no decano da solidão
Presidindo à assembleia remota
Onde os Deuses discutem as estratégias
Para o extermínio da emoção!
Nas horas silenciosas
Ocultas o medo
As mãos tremem-te e os punhos vacilam
E do outro lado da cortina encontramos o nevoeiro
Que a formalidade do mundo nos contamina…!
Ao longo dos dias
As noites vão mudando as vidas
E os breves longos instantes de eufemismo
São apenas sanguíneas temperanças
Loucuras ténues, devassas, que a madrugada te sussurrou…
Ao fim de um ano…
Acordas sonâmbulo
E o dia não tem mais dia
Que a noite é feita de lume apagado
Censurado pela ventania
É que a noite não é mais noite…
E a vida não é mais vida…
És tu e só tu… dentro de uma lagoa vazia
Onde as algas te cegaram o sorriso…
E te embriagaram de ilusão…
É que…
Quando abrires os olhos entenderás
O que as máquinas do mundo te fizeram
Mercantilizaram-te o coração
Montaram as suas estruturas frias de aço, ferro e pedra
E num mercado ao ar livre, feira popular da escuridão
Os Homens resignaram-se a mentir
Em vez de olhar e ouvir
O ritmo de cada sensação…
E sem saberes…
Adormeceste pensando que sabes tudo
Porque alienado permaneces
Cego, surdo e mudo…
A vida passou… os Homens morreram…
E nem as lágrimas nos registaram a saudade…!
Nada fica depois da partida…
Nem palácios, nem contas ricas.. nem os diamantes à volta do pescoço…
Nem a carne morna… luzidia… onde dançam os diamantes…
Nem anéis… nem os ossos…
Tudo se esvai…
Como poeira num vendaval…
E anda um mundo inteiro subjugado a impérios imensos
Que mais não são do que castelos de areia
Que sucumbirão
Ao subir da maré…!
Por ironia…
O Homem… tão obcecado pelo realismo… pelos factos… e provas…
É presa de si próprio…
Neste horizonte em que realidade é feita de incongruentes falsidades
Salpicada aqui e ali…
Com nano-verdades…
É esse o fado
Adormecer.. antes de despertar…
Deleitamo-nos a pensar…
Nestas palavras escritas que se disseram
Como se nelas existisse uma fonte
Onde o sublime e o impossível aconteceram…
.. para sempre…
nunca…
.. no extenuante excesso…
.. desta ironia…!